gestação e doenças oculares

Doenças oculares podem iniciar na gestação

Toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, herpes e sífilis estão entre as doenças maternas que podem alterar a visão do bebê durante a gestação.

Na gestação, doenças maternas como toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, herpes e sífilis podem ocasionar doenças oculares no bebê. Conhecidas pela sigla TORCHS, essas cinco doenças são causadas por agentes infecciosos que atravessam a placenta e atingem o feto, e prejudicam a visão da criança.

De acordo com a Dra. Ana Tereza Ramos Moreira, especialista em oftalmopediatria, a toxoplasmose congênita é uma importante causa de baixa visão em crianças na região Sul do Brasil. Isso porque a cicatriz causada pela doença muitas vezes ocorre na área mais importante da retina humana, que é a mácula. “A toxoplasmose é uma doença infecciosa provocada pela transferência de um parasita, o Toxoplasma gondii, para o concepto, através da placenta. A mãe pode apresentar a doença pela primeira vez durante a gestação. Entretanto, pode ainda ser que haja a reincidência da toxoplasmose e a mãe apresente novo episódio da doença transmitindo-a para seu bebê”, explica a oftalmopediatra.

Esse parasita vive no intestino de gatos e pode contaminar água, frutas e vegetais, além da carne de porco e de cordeiro. Se no início da gestação, o exame de sangue para toxoplasmose for negativo, significa que a mulher nunca teve contato com o parasita. Isso que dizer que ela pode contrair a doença durante a gestação. Para evitar que isso aconteça, deve ter precauções para não ingerir legumes ou frutas mal lavadas, não beber água que possa estar contaminada e evitar se alimentar com carne de porco mal cozida.

Pelo menos cinco doenças
adquiridas na gestação podem
afetar a saúde ocular do feto

A Dra. Ana Tereza conta que o bebê recém-nascido pode apresentar exame de sangue compatível com a transmissão da toxoplasmose durante a gestação, mas o exame oftalmológico pode ser normal. “Nesse caso, está indicado o tratamento do bebê durante todo o primeiro ano de vida. As pesquisas científicas apontam para maior chance de essas crianças apresentarem inflamação dentro do olho durante o crescimento, culminando na adolescência”, detalha.

As crianças com toxoplasmose congênita ocular podem apresentar catarata congênita, microftalmia (olho pequeno) e estrabismo. Associada às alterações oculares, pode existir alteração neurológica. “Essas crianças necessitam de atendimento especializado precoce, visando o melhor desenvolvimento visual e global. Nesses casos, pode ser que haja necessidade de utilização de recursos ópticos especiais para melhorar a visão das crianças”, acrescenta a oftalmologista pediátrica.

Rubéola na gestação
A segunda doença da sigla TORCHS é a rubéola. Trata-se de uma doença comumente confundida com outras, pois alguns sintomas como dores de garganta e de cabeça são comuns a outras infecções, dificultando seu diagnóstico. A rubéola tem como agente causal um vírus que se dissemina por gotículas respiratórias e saliva. Após o contágio, o vírus tem um período de incubação que varia entre 2 a 3 semanas. Na sequência, surge febre baixa, gânglios linfáticos e manchas de cor rosada, inicialmente no rosto, mas que se espalham por todo o corpo. “Apesar de não ser grave, a rubéola é particularmente perigosa na forma congênita, pois pode deixar sequelas irreversíveis no feto, como: glaucoma, catarata, malformação cardíaca, retardo no crescimento e surdez”, explica a Dra. Ana Tereza Ramos Moreira.

A vacinação é a forma de prevenção da rubéola. Durante a triagem pré-natal as mães são testadas através de exame de sangue para verificar se são imunes ou não à doença.  É contraindicado realizar a vacina durante a gestação, pois o concepto seria contaminado pelo vírus atenuado da vacina.

Se a mãe contrair rubéola durante a gestação, seu bebê pode nascer com a síndrome da rubéola congênita. “No olho, pode haver catarata, retinopatia, olho pequeno, denominado de microftalmia, glaucoma congênito e alteração corneana. Esses bebês podem necessitar de cirurgia de catarata e também de glaucoma, quando coexistente”, afirma a especialista.

Quando o contágio ocorre dentro das primeiras 12 semanas de gestação, o bebê poderá apresentar anomalias severas, que causam aborto em 20% dos casos. Se a rubéola ocorrer entre a 13a e 16a semana gestacional, poderá desencadear surdez e retinopatia em 15% dos conceptos. No caso do contágio acontecer após as 16 semanas, o desenvolvimento poderá ser normal, havendo risco de retinopatia e surdez.

CMV na gestação
O citomegalovírus (CMV) é um vírus da família do herpesvírus que acomete pessoas de todas as idades, raças, realidade sócias econômicas e culturais diversas. Na maioria das infecções por CMV, ele é assintomático ou pode causar doença leve. Nos recém-nascidos e crianças imunodeprimidas, no entanto, ele pode ser grave. Esse vírus pode ser transmitido de várias maneiras, entre elas: vias aéreas (espirros, tosse, fala e saliva); objetos (contato com objetos como xícaras, copos e talheres, uma vez que o citomegalovírus não se altera por condições do meio ambiente); via sexual (através de sexo desprotegido); transfusão sanguínea; transmissão da gestante para o bebê ou através do aleitamento materno.

Da mesma forma que na toxoplasmose, a maior gravidade da infecção ocorre quando a transmissão se dá nas fases iniciais da gestação. Todavia, a probabilidade de contaminação do bebê é maior ao final da gestação, no terceiro trimestre. Segundo a Dra. Ana Tereza, o recém-nascido contaminado pelo citomegalovírus pode apresentar corioretinite, que é uma inflamação na retina e coróide do bebê, atrofia do nervo óptico, estrabismo, microftalmia (olho pequeno) e catarata.

Herpes na gestação
O vírus herpes simplex tem elevada prevalência na população em geral. O herpes oral é vinculado ao vírus Herpes simplex tipo 1. A infecção se dá pelo contato com lesões orais ou secreções infectadas. Já o herpes genital é associado ao vírus Herpes simplex tipo 2, sendo a infecção resultante do contato com lesões genitais ou secreções vaginais infectadas.

Quando a gestante sabe ser portadora de herpes genital, o parto por via alta e sem rompimento prévio das membranas poderá proteger o bebê do contágio. No entanto, mais de 70% das crianças afetadas nascem de mulheres assintomáticas.  “Felizmente a infecção congênita é rara, porém é acompanhada de prognóstico grave. Esses recém-nascidos podem apresentar microcefalia (cabeça e o cérebro são menores que o normal para a sua idade), hidranencefalia (hemisférios cerebrais não estão presentes e são substituídos por líquido cerebroespinhal) e microftalmia (globo ocular menor que o normal), sendo a mortalidade elevada e as sequelas nos bebês sobreviventes, muito graves”, especifica a oftalmopediatra.

A transmissão da doença logo após o nascimento, período denominado de perinatal, é a forma mais comum de contágio dos recém-nascidos, sendo que 90% dos casos de herpes ocorrem nesse período. Os bebês que apresentem vesículas ou lesões cutâneas orais ou oculares devem ser tratados o mais precocemente possível.

Sífilis na gestação
A sífilis é uma infecção causada por uma espiroqueta, o Treponema pallidum, de disseminação sexual, que quando presente na gestante, pode afetar o concepto. A infecção precoce na grávida não tratada transmite-se em 60% a 100% dos casos ao feto. A sífilis congênita, ao contrário de outras doenças de transmissão sexual que afetam o recém-nato, pode ser prevenida e/ou tratada intra útero, desde que devidamente rastreada e precocemente tratada. “Porém quando isso não ocorre, poderá gerar consequências graves, com alteração no sistema nervoso central, cardiovascular, ósseo e oftalmológico”, finaliza a Dra. Ana Tereza Ramos Moreira.

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